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11 de novembro de 2010

Um tiquinho de Márquez





“A casa renascia de suas cinzas e eu navegava no amor de Delgadina com uma intensidade e uma felicidade que jamais conheci em minha vida anterior. Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco. Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis -me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados. Quando meus gostos musicais entraram em crise me descobri atrasado e velho, e abri meu coração às delícias do acaso. Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor.”

Gabriel Garcia Márquez – Memória de minhas putas tristes. Record, 2009.

14 de setembro de 2010


Amanda ficou pensativa e falou como se estivesse sozinha na sala:

- Minha vida com o Marco foi uma tragédia. Os homens não podem nos aceitar como somos. Estão sempre querendo nos transformar. Quando conseguem, e a mulher se adapta, se modifica, aí os miseráveis entram em parafuso, ficam possessos, gostariam que ela não fosse mais aquilo em que a transformaram. O ideal seria que a mulher voltasse a ser exatamente como era no tempo em que se conheceram.

- Como é essa história?

- Esquece. Deixa pra lá. Os homens só dão aborrecimento, sabia? – Amanda soltou uma gargalhada. – Todas as mulheres que conheço adoram se chatear, têm um lado masoquista, só estão felizes quando estão infelizes. Eu também. Eu me incluo nesse grupo. Por que você está me olhando com essa cara de espanto?

Leonardo riu:

- Estou me lembrando daquele personagem do romance de Roberto de Aquino, aquele professor de matemática que vivia de porre e dizia a toda hora que, numa equação, num problema, a mulher é sempre a incógnita. Quem se envolve com uma entra um labirinto do qual nunca mais conseguirá sair. Você já ouviu falar na linguagem dos pássaros?

- Que diabo é isso?

- É uma dessas teorias orientais. De acordo com a linguagem dos pássaros, os relacionamentos entre homem e mulher se processam inevitavelmente em sete etapas: busca, encontro, alegria, deslumbramento, dependência, demência e desenlace. Desenlace, no caso, quer dizer a morte. Quem não tiver consciência dessas sete fases e se deixar envolver termina se estrepando.

- Babaquice, Léo. Babaquice.”

NASCIMENTO, Esdras do. A Dança dos Desejos, opus 13. A Girafa, 2006. 

30 de julho de 2010

O grande Tema

O amor é o grande tema – completou Casé – sobre o qual se pode falar qualquer besteira porque nele cabe tudo. O amor é uma invenção dos humanos, Jacira. Assim como inventaram a lanterna, a espingarda, o shopping center, eles inventaram o amor. O professor Quelônius me disse que esse tipo de sentimento a dois não existia entre os humanos pré-históricos. Eles eram iguais a nós, répteis, às aves, aos peixes, aos outros mamíferos. Ele foi inventado para tentar organizar melhor a família dos humanos. Esses primatas criaram a idéia de que o amor é belo, é isso, é aquilo, e seus descendentes se viram na contingência de amar. Mesmo sem saber do que se trata. Não percebe, Jacira, que os humanos são prisioneiros de algo de que desconhecem o funcionamento?

Casé, o Jacaré que anda em pé. Carlos Eduardo Novaes.

22 de julho de 2010

Diálogo


(...) - Sou sua prisioneira, mas você quer que eu seja uma prisioneira feliz. Só posso pensar em duas possibilidades: ou pensava obter algum resgate, ou então faz parte de um bando ou qualquer coisa desse gênero.

- Já lhe disse que não era isso.

- Você sabe muito bem quem eu sou. Deve saber que o meu pai não é rico. Não creio, pois, que se trate de resgate.

Senti um arrepio ao ouvi-la pensar em voz alta.

- Só resta a possibilidade de se tratar de um caso sexual. É muito provável que me queira fazer alguma coisa.
Miranda observava-me.

O comentário chocara-me.

- Não é nada disso. Vai ver que lhe mostrarei todo o respeito. Não sou desses – redargui, bastante friamente.

- Então, você deve ser um louco – disse ela. – Um louco gentil e amável, claro. (...) Por que razão estou aqui?

- Queria que você fosse minha convidada.

- Convidada?

(...) Tinha o cabelo penteado uma comprida trança. Estava muito bela. Parecia corajosa também. Não sei bem por que, mas imaginei-a sentada nos meus joelhos, muito quieta, comigo a acariciar-lhe os cabelos, inteiramente soltos, como daquela vez que a vi assim.

De súbito, quase sem pensar, disse-lhe:

- Estou apaixonado por você. Estou quase louco de amor.

- Já compreendo tudo – disse ela, num tom de voz muito baixo e sério.

Depois disso, não me voltou a olhar.

Já sei que é antiquado fazer uma declaração dessas a uma mulher, e nunca tencionara faze-lo. Nos meus sonhos, olhávamo-nos sempre, ternamente e beijávamo-nos sem ser preciso falar. Um conhecido meu chamado Nobby disse-me, uma vez, que nuca se devia dizer a uma mulher que estamos apaixonados por ela, mesmo que o estivéssemos. E se fosse preciso, explicara-me ele, a melhor coisa seria fazê-lo de brincadeira, gracejando. O mais estúpido é que eu disse mil vezes a mim mesmo que nunca o faria e que deixaria a coisa acontecer normalmente. Mas sempre que estava a sua presença, eu ficava muito confuso e dizia coisas que não tencionava dizer.

John Fowles – O Colecionador.