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18 de maio de 2011

Turismo Atemporal

A persistência da Memória. Salvador Dali.



Se o ontem viesse ao hoje
Será que tu vinhas junto?
Assim, tu e eu
Dadas as mãos e as cabeças encostadas
Navegando nos ponteiros do relógio e nas folhinhas do calendário
Confiando no timoneiro – o destino
Não tendo tempo pra pensar no tempo
De tanto pensar em nós dois

Ah!
Não virias!
Duvido que viesses!

Mata virgem são os algarismos
Dos dias e meses que pensei serem nossos
Não eram
Não foram
Nunca serão!

A urbanização é tentadora
Quem há de querer aventurar-se numa mata virgem
Cheia de perigos?
Tu é que não!

Adentrei sozinho
No universo anacrônico da poesia passadista
E fiquei preso no passado pré-histórico de nós dois
Num tempo em que o amor se revelava sublimemente
Na nossa saída nômade à caça de palavras
No nosso bater de pedras
Às vésperas da descoberta do fogo da coesão
A única coisa que nos unia
A colheita de elementos enriquecedores
Poéticos
Paranominais!

Que viagem!
Que viagem!

Supus, tolo
Que tivesses embarcado em outro barco
Que farias uma rota diferente
(Cabral ou Vasco da Gama)
Mas que no fim de tantos mares cronológicos cruzados
Os nossos destinos atracariam juntos
E nos encontraríamos, inevitavelmente no mesmo porto

Fiz a viagem sozinho
Sozinho cheguei ao passado
E tu não estavas lá

Sigo, junto a homens pré-históricos
Pensando na minha sina
No presente não te tenho
No passado não estás
Não existe futuro

De modo que
Preso neste passado em que não te encontro
Nada me resta senão assumir o meu anacronismo
Obsoletismo, arcaicismo, classicismo
Idiotismo total-tradicional

Sentarei numa montanha
Aguardarei de lança na mão a próxima manada de mamutes chegar
E amanhã, se não nevar
Levantarei bem cedo e inventarei a roda.

Março de 2011

26 de março de 2011

Soneto de Conformação




Num mundo construído de cobiça
É graça conhecer tão doce alma
É paz ouvir sua voz que me acalma
Esqueço que há tanta injustiça

Amar já não é mais minha premissa
Porquanto ainda viva o sentimento
Mas ambos sofreremos o tormento
Se não frear o que o seu rosto atiça

E grato só por ter te conhecido
De alma da pureza mais maciça
Te evito pra matar o amor nascido

E um dia, se no mundo há justiça
Teremos o afeto ressurgido
Em pura amizade vitalícia

Janeiro de 2011

1 de janeiro de 2011

Intitulé

Tudo o que eu penso já foi pensado
Tudo o que eu faço está errado
Pensei que a vida caminhasse assim
Sem fim
Mas vejo que o fim está mesmo aqui
Em mim

Desando a andar dizendo asneiras
Neste mundo cheio de peneiras
Nada de mim passa
Exceto essa solidão esporádica
Grudada intocável nos meus poros

O sofrimento não existe
Tudo não passa de ilusão
Tortura de um DOPS sentimental
Todos temendo o fim que está em mim
Impiedosos como os carrascos da inquisição

Todos me querem por perto
Exceto
Os que estão certos
Os que escaparam à hipnose da minha mediocridade

Expulsam-me da vida, mas não me deixam à morte
Sorte
Pensam que sou forte
Corte

Trago no meu bolso todos os covis do mundo
Que me injetam o veneno da solidão intragável
Está por todo o meu corpo
E não será removido

Deito no banco infinito da pequena praça
E com os olhos cheio de nada
Saúdo efusivamente a lua e as estrelas
Minha companhia na madrugada

Dezembro de 2010

15 de dezembro de 2010

Mundo



Mundo, mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
(Drummond)


Ah mundo!
Mundo, mundo!
Quisera, ao menos um segundo
Entender tuas demandas

Entender os teus dizeres
Compreender os desprazeres
E os desmandos que me mandas

Mundo, vida
Coisa estranha e abstrata
Com que trato me destratas
Com que prato me retratas
Na mesa dos que me querem
Devorar as carnes

Que mundo?
Que vida?
A serviço de quem me persegues?
A serviço de que?
Me entregues
Os teus segredos, mundo.

Caminho por suas ruas
Orbito por suas luas
E choro meu pranto, choro.
Arranco a minha lágrima
Que esteve sempre escondendo
Meu desespero profundo.

Fernando Lago
Feira de Santana, 11 de Dezembro de 2010

22 de julho de 2010

Diálogo


(...) - Sou sua prisioneira, mas você quer que eu seja uma prisioneira feliz. Só posso pensar em duas possibilidades: ou pensava obter algum resgate, ou então faz parte de um bando ou qualquer coisa desse gênero.

- Já lhe disse que não era isso.

- Você sabe muito bem quem eu sou. Deve saber que o meu pai não é rico. Não creio, pois, que se trate de resgate.

Senti um arrepio ao ouvi-la pensar em voz alta.

- Só resta a possibilidade de se tratar de um caso sexual. É muito provável que me queira fazer alguma coisa.
Miranda observava-me.

O comentário chocara-me.

- Não é nada disso. Vai ver que lhe mostrarei todo o respeito. Não sou desses – redargui, bastante friamente.

- Então, você deve ser um louco – disse ela. – Um louco gentil e amável, claro. (...) Por que razão estou aqui?

- Queria que você fosse minha convidada.

- Convidada?

(...) Tinha o cabelo penteado uma comprida trança. Estava muito bela. Parecia corajosa também. Não sei bem por que, mas imaginei-a sentada nos meus joelhos, muito quieta, comigo a acariciar-lhe os cabelos, inteiramente soltos, como daquela vez que a vi assim.

De súbito, quase sem pensar, disse-lhe:

- Estou apaixonado por você. Estou quase louco de amor.

- Já compreendo tudo – disse ela, num tom de voz muito baixo e sério.

Depois disso, não me voltou a olhar.

Já sei que é antiquado fazer uma declaração dessas a uma mulher, e nunca tencionara faze-lo. Nos meus sonhos, olhávamo-nos sempre, ternamente e beijávamo-nos sem ser preciso falar. Um conhecido meu chamado Nobby disse-me, uma vez, que nuca se devia dizer a uma mulher que estamos apaixonados por ela, mesmo que o estivéssemos. E se fosse preciso, explicara-me ele, a melhor coisa seria fazê-lo de brincadeira, gracejando. O mais estúpido é que eu disse mil vezes a mim mesmo que nunca o faria e que deixaria a coisa acontecer normalmente. Mas sempre que estava a sua presença, eu ficava muito confuso e dizia coisas que não tencionava dizer.

John Fowles – O Colecionador.

16 de julho de 2010

Brevíssimas

        
       Imagem: http://migre.me/XuV4

Coração,
te condeno a este cárcere
sem direito a habeas corpus.
Descumpridor de acordos!

Julho de 2010


30 de junho de 2010

18 de Dezembro




Tenho pensado muito sobre algumas coisas que tenho escrito aqui e, muito mais, sobre o que tenho pensado ao escrevê-las, sem escrever. Consegue entender-me? É que por trás destes meus pensamentos aqui escritos existem tantos outros que não são escritos e que ficam sendo ruminados pela 'boca' de meu cérebro[1]... São pensamentos prenhes de pensamentos, prenhes de pensamentos, prenhes de pensamentos, que são um ciclo infinito. O que tenho pensado sobre esses pensamentos – o que me enche a mente ao escrevê-los – é justamente um medo de que minhas conclusões tiradas - infundadas - através deles estejam extremamente erradas. Esse medo é provavelmente correto... Deus! Deus! Sou um poço de dúvidas!



[1] Perdoem-me a metáfora mal empregada.

Dezembro de 2007

* De um dos muitos rabiscos meus, de momentos de aulas não muito atraentes. Pra vocês verem como são ousados os meus fantasmas, esses crápulas. Me assombram até em momentos de aula! 



28 de junho de 2010

Palavra...




Por algum motivo minha palavra aparentemente perdeu o valor. Não sei exatamente qual o motivo, mas isso é péssimo, porque era a única coisa que me restava de valor. Se é verdade o que penso, melhor parar. De vez. Caminhar a frente, mas sem nada. Nem ninguém.

De 27 de Junho de 2010, com algumas edições.




Crédito da imagem: http://poesiadiaria.wordpress.com/2009/04/03/o-peso-da-palavra/