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21 de abril de 2012

Pegou a avenida e se foi... (segunda parte)




Nem pude me despedir, quando voltei, ela já tinha desaparecido. Pra ter certeza de que ela não fora uma ilusão, um anjo, ou qualquer dessas coisas extraordinárias que costumam aparecer nas estórias de cinema infantil, perguntei pro moço da pipoca se ele tinha visto a moça que conversava comigo havia pouco.

- Olha, ela entrou e saiu rapidinho. Foi embora.

- Embora?

- É, pegou a avenida e se foi.

Pegou a avenida e se foi... Eu poderia iniciar uma poesia ou uma música assim. Ou mesmo um romance. Surpreende? Já vi muitos romances surgirem a partir de uma simples frase. Mas seria um romance triste.
Não mais triste do que seria o de agora, mais de cinco anos depois do ocorrido da fila do fórum, quando ela passava por mim, num requebrar bem brasileiro, e fingia que não me reconhecia, ou pior, não me reconhecia de fato.

Vinha em sentido oposto, passou por mim e continuou caminhando, passo ritmado acompanhado de um toctoc sinfónico do salto na rua semipavimentada, cabelos balançando no compasso do som que os sapatos faziam: toda musical! Mesmo os elementos que não tinham nada a ver com a sonoridade necessária para a música, causavam esse efeito. Os olhos e o cheiro que ela deixava como rastro por onde passava davam uma vontade danada de sair cantando ópera pela rua. Tenho pra mim que ainda que eu não a reconhecesse de fato, faria o que fiz: dei meia volta e segui o rastro do aroma do seu perfume.

Fui parar num barzinho, ela estava sentada num daqueles tamboretões e já tinha pedido um gole de alguma coisa transparente que eu não sabia o que era. Sentei ao seu lado e disse oi. Ela respondeu com uma inclinação rápida de cabeça e continuou bebendo. Eu não sabia muito o que fazer. Ou eu falava alguma coisa ou saía dali. Não podia ficar sentado ao lado dela sem motivos, com essa cara de idiota que a natureza fez o favor de me dar, olhando pra ela calado. Seria estranho, talvez até assustador.

- Coloca uma dose daquilo pra mim – falei apontando pra uma bebida qualquer. A moça me olhou, o balconista também. Amarelei, devia ser alguma coisa muito pesada.

- Melhor não – ri, disfarçando – vou dirigir daqui a pouco. Me traz apenas um conhaque.

Foi por pouco. Onde eu estava com a cabeça? Conhaque e vinho eram as únicas coisas que eu conseguira beber até então.

Evitei olhar muito pra ela, poderia se assustar ou se irritar. Mas estava linda, uma mulher verdadeiramente! Mas como puxar assunto? Talvez se eu dissesse: “você cresceu, hein!” ou “Nossa, você está uma mulher!”... Não, muito “tio”. Eu tinha que dizer algo criativo, algo novo, algo surpreendente...

- Está calor, não é?

Genial! Falar do tempo. Isso sim é inusitado.

- Até que não...

Ótimo. Trocamos algumas palavras. Agora eu não sabia o que falar e o silêncio voltou a reinar.  Mais uma dose, mais uma olhadinha, como estava linda! E me olhava, com expressão intrigada...

- Por que você tá me olhando assim? – perguntei, num ímpeto de coragem.

- Sei lá, parece que eu te conheço... De algum lugar.

- Será? Eu lembraria de uma mulher tão bonita.

- É, acho que também me lembraria do senhor.

Não tentem me entender, amigos. Não me perguntem por que eu não falei que ela estava errada, que ela já tinha me conhecido uma vez e agora não se lembrava mais. E que diabos era aquilo de senhor?

- Será? – foi o que eu disse

- Eu tenho a memória boa.

- Não que eu esteja duvidando disso, mas eu é que não tenho tanta importância assim pra ser lembrado.

Ela riu. Sim, mudara muito, tornara-se mulher. Mas um pedaço da menininha que eu conheci se mostrou naquele sorriso. E de novo eu tive vontade de casar com ela.

- Você tem um sorriso lindo.

- Obrigada. Você é daqui mesmo?

- Sou, estive viajando um tempo, mas voltei, agora...

A conversa estabeleceu-se. Quisera eu que fosse eterna. Talvez a continuação da conversa eterna interrompida pelo fim da fila do fórum. Ela ainda mantinha as convicções, defendia a causa das mulheres e formulava ainda melhor as críticas e as soluções que achava pros problemas.

- Era muito fácil, mas nenhum governo quer!

A conversa foi maravilhosa, como a outra tinha sido. Mas, como vocês bem sabem, uma garrafa de conhaque dura muito menos que uma fila de serviços de fórum. Mal virei para pedir outra e ela já tinha se levantado... Ainda estava na porta quando notei e falei alto:

- Você já vai?

- Já. Foi um prazer te conhecer. Quem sabe a gente se vê por aí de novo.

- Tomara. Foi um prazer te conhecer também.

Caminhei até a porta e acompanhei com os olhos os passos dela se afastando, seu rebolado automático de mulher bonita e os cabelos que se balançavam ritmados. Já não se podia ouvir o toctoc dos sapatos, mas mesmo assim ela era toda música. Música visual. Meus olhos seguiram seu balançado até o momento em que ela, mais uma vez, pegou a avenida e se foi.

Foi a primeira mulher que eu conheci duas vezes. E vivo esperando uma terceira.

Fernando Lago - Abril de 2012 

17 de abril de 2012

Pegou a avenida e se foi... (Primeira parte)




Passou por mim, virou a esquina e nem percebeu quem eu era. Estava linda, ainda mais do que antes. Mudara bastante, tinha mais corpo, as curvas eram mais adultas e o rosto de menina agora transmitia uma forte expressão de dona do mundo. Eu, no entanto, mudei pouco, quase nada além de uns três ou quatro novos fios de cabelo branco que surgiram no alto da minha nuca. Inacreditável que não tenha me reconhecido.

Era adolescente quando nos vimos pela primeira e última vez. Já era bela, mas tinha as pernas finas e os seios mal começavam a arredondar-se. Mas o que me impressionou nela foi a doçura e inteligência com que conversava sobre as coisas diversas que vinham, no um-assunto-puxa-outro que iniciamos naquela calçada. Política, cultura, a situação econômica do país... Ela discorria sobre tudo isso com ligeiríssimos sinais de irritação quando se referia às autoridades competentes de cada área. Chegou a cuspir no chão quando pronunciou o nome do Ministro da Educação. Mas não demorava a voltar à doçura de sempre, apresentando uma solução utópica para o problema, mas admirável para uma adolescente que tinha acabado de sair do ensino fundamental.

Os fervorosos militantes da moralidade moderna me censurarão em pensamento e em palavras, com certeza, mas devo confessar que desejei, naquele instante, casar-me com aquela menininha de quinze anos. Desejei tê-la pra sempre comigo, ouvindo suas histórias e protestos.

Há poucos anos isso não seria um absurdo. Homens de quase trinta casavam-se aos montes com meninas de quinze. Creio que foi esse o pensamento do senhor que vendia pipocas à porta do fórum, quando disse:

- Não vai comprar uma pipoquinha para a sua senhora?

Que me importava a ausência de formas diante daquele sorriso, que ela apresentou tão logo o senhor terminou a frase? Eu que tinha um padrão de beleza tão exigente: curvas, seios, traseiro, agora me rendia totalmente àquele sorriso de menina.

- Não somos casados não, tio – disse ela simpaticíssima ao velho – eu nem tenho idade pra isso!

A fila do fórum andava. Deu vontade de perguntar o que uma garotinha de quinze anos fazia ali, mas achei melhor não saber. Estávamos sentados na calçada enquanto a fila estava parada, agora que ela começava a andar, ficamos automaticamente de pé, sem pensar ou dizer nada, como uma atitude natural dos nossos membros.

- E você não tem namorado? – perguntei

- Eu sou muito nova...

- Muitas meninas de quinze anos namoram. Até mais novas.

- Mas eu não quero.

- Entendo.

- E você?

- Eu o que?

- Namora?

- Não.

- Quando for namorar, não escolhe uma menina muito nova.

- Por quê?

- Porque ela não te entenderia, você é inteligente. Você só ia se decepcionar.

- Mas muitas meninas são inteligentes, olha você, por exemplo.

- O pessoal acha que eu falo demais...

- É, você é tagarelinha mesmo, mas eu adorei você.

- Também gostei de você. Na verdade a maioria dos meus amigos são mais velhos...

- É porque você tem uma inteligência acima da média – ri – você tem um futuro muito promissor, com certeza.

Não gosto de clichês, mas esta foi a única frase que me acudiu naquele momento. Ela riu de novo e eu, mais uma vez, desejei que aquela criaturinha ficasse comigo pra sempre. E é agora que os moralistas hão de me crucificar: desejei tê-la ali mesmo, naquela fila do fórum. Felizmente o abismo entre o desejo e a ação sempre foi suficientemente grande em mim, é o que faz muitos homens serem bons.

- Você é culto – disse ela – isso é raro nessa cidade.

- Não sou culto, apenas reflito algumas coisas.

- É muito bom encontrar alguém pra se ter uma conversa agradável numa fila a essa hora do dia.

- Eu digo o mesmo, espero que possamos nos ver novamente.

- Eu também. Olhe, é a sua vez.

A parte que é, em geral, a mais desejada da fila, naquele instante foi a mais odiada. Naquele momento, eu queria uma fila eterna... 



Fernando Lago - Abril de 2012

14 de fevereiro de 2012

Naturalmente...*

Imagem: estação rodoviária de Teixeira de Freitas - Original: http://onibusbrasil.com/foto/72296/



Sei que o destino do amor
É sempre a despedida...
(Tereza Cristina e Pedro Amorim)


Diariamente ia ao portão da rodoviária no horário em que chegava o único ônibus que vinha de Salvador. Sempre com a esperança de que você fosse sair pela porta com uma grande mala dizendo-se arrependida de ter ido embora e que a capital não era o que esperava e que sentia minha falta e que precisava de mim e que... Qualquer desculpa, meu deus! Qualquer motivo, desde que voltasse.

Mal a gente tinha se conhecido e parecia se completar. Como se nós fôssemos partes de um mesmo todo, partículas que vagaram muito e muito pelo universo, errantes pelas galáxias perdidas, desviando de buracos negros e pegando carona em asteroides e meteoros, até serem atraídas, uma pela outra, para este planeta estranho e mal habitado. É assim que nos imaginava: não apenas duas almas gêmeas, mas uma só alma, separadas pelo destino, pelo cosmos, ou sabe-se lá o que.

Parece estranho? Você riria, certamente. Eu sei que riria... Porque eu sempre critiquei a sua crença nos horóscopos do jornal. Mesmo eu rio. Acho que a sua falta fez eu me apegar a qualquer coisa que me traga sua imagem...

Já que você não está, tudo que tem qualquer relação com você, com sua essência, com seus costumes, parece me atrair. Como aquela agulhinha que se magnetiza, quando deixada algum tempo perto de um imã, sabe? Transforma-se também ela em um imã. Você magnetizou tudo aquilo que tocou nesta casa. E agora tudo me atrai naturalmente, como naturalmente você me atraía. Naturalmente... Como se a existência de um estivesse condicionada à do outro. Isso. Você era a condito sine qua non da minha existência...

Sei que você está rindo nesse momento, enquanto lê essa carta, provavelmente ao mesmo tempo em que se maquia para ir a alguma festa no Rio Vermelho ou na Ondina ou em qualquer desses lugares que tem festa na Soterópolis. Sim, lendo e se maquiando. Essa versatilidade que sempre admirei. Sei que você abriu sem muita empolgação e leu bem rápido, pra não perder a hora de se divertir. E riu das minhas palavras, porque meu sentimentalismo repentino é uma piada pra você agora... Sei disso tudo e me pergunto: por que insisto? E nunca sei me responder... A verdade é que vou percebendo, mesmo sem querer, que não havia nada de natural na nossa união. E a única coisa que aconteceu naturalmente mesmo foi você ter se cansado de mim...

Fernando Lago – Janeiro de 2012

*Texto publicado no blog da Confraria dos Trouxas, a convite de Flávia Queiroz 
Os fatos relatados no conto são meramente fictícios.

15 de novembro de 2011

Lounge




Sempre fomos vulcão, desde o primeiro momento que resolvemos mudar o nosso status de relacionamento perante a indiferente sociedade que nos cerca. Nunca fui modesto, Júlia, você sabe. Por isso me sinto inteiramente à vontade para dizer que a maior parte de nossas brigas começou por culpa de seus ciúmes. Como no caso da carta da Kênia, por exemplo: minha amiga de infância, Júlia! E você ralhou comigo porque ela me tratava por “meu primeiro namoradinho”... Entrou em erupção emocional, eu também; e saímos queimando tudo o que vinha pela frente. Éramos assim, destrutivos, devastadores em nossas brigas quase sempre torpes.

Mas no dia em que você me deixou falando sozinho e saiu correndo para chorar em um canto, sei que foi o saldo de todas as coisas pelas quais te fiz passar... Só agora, aqui isolado com as persianas abertas e vendo o céu sem lua, reconheço o quão tonto fui durante cada minuto em que estivemos juntos.

Naquele mesmo dia procurei sua irmã. Confesso isso sem pudor, porque você já conhece a história, com certeza. Apenas não a tinha ouvido de mim. Provavelmente nem vai ouvir. O máximo que te ofereço são estas letras, que ainda vacilo te entregar.

Mas procurei a sua irmã. Procurei e descobri por sua própria boca que ela ia casar. Doeu. Só que a dor que eu senti naquele dia não foi essa dor que chamam de amor. Foi de ego mortalmente ferido. Ela tinha me dito coisas tão bonitas, tão realizáveis. Tantas promessas! Entregou-se tão doce e despejada, como se não existisse Hélio, como se não existisse você... Me desculpe, mas é esta a verdade: ela foi tão minha naquele dia que cheguei a pensar que poderia ser pra sempre...

Ego! Só aí entendi que a minha atração por Taty sempre foi uma busca de satisfação para o meu Ego. Não me estranhe, sabemos que nunca estudei psicologia e que essas informações são extremamente perigosas, mas não vejo outra forma de dizer isso.

Totalmente diferente, foi o que senti há alguns dias atrás, quando eu passava pela Rua Seis e ouvi uma doce voz cantando: “como vai você eu preciso saber da sua vida...” e resolvi parar para ouvir um pouco.
Vergonha! Tantos anos juntos e eu nunca tinha te visto cantar, salvo alguns murmúrios que cessavam logo quando se percebiam observados.

Sim. Naquele bar, era a sua voz. E o seu rosto bonito, e o seu corpo esbelto e os cabelos levemente amorenados, que te diferenciavam da Taty... Era você. Toda você! E aquele vestido preto com detalhes prateados fui eu que te dei... Eu.

“Essa mulher é minha...” Murmurei, num canto escuso do bar. E esperei pacientemente até que você terminasse de distribuir seus encantos, que os casais apaixonados ou em crise ou os amigos de breja sequer percebiam. Trabalho ingrato!

Fui eu que puxei as palmas naquele dia. Num ambiente como aquele, não sei se você já tinha sido aplaudida antes. Mas foram palmas sinceras, não as puxei porque era você. Senti-me realmente tocado e inspirado a puxá-las, encantado como nunca tinha ficado antes, por uma pessoa que há pouco tempo estava ao meu lado. Minha! Sim, era minha! Aquela cantora elegante era minha!

No momento em que você ia descendo do palco improvisado eu ia me preparando para levantar da mesinha no canto escondido do bar. E tinha tanta certeza que você era minha que já fui com o beijo aprontado nos lábios e o discurso ensaiado para dizer: “Me perdoa, eu sou muito tonto, muito tonto, muito tonto...”

Mas antes que eu pudesse me aproximar, percebi suas mãos nas mãos de outro sujeito. Coração gelado, pernas bambeando, os olhos simulando cisco no olho... Sua mão em outra mão que não a minha. Percebi que era profecia o que você cantava na música a pouco, naquele banquinho de bar, e que já tinha se cumprido: eu não fui; e o tempo afastou nós dois.

11 de Novembro de 2011

8 de setembro de 2011

Música, divina música!


(Millôr Fernandes)


Imagem: Orkugifs.com



Tanto duvidaram dele, da teoria daquele jovem gênio musical, que ele resolveu provar pra si mesmo, empiricamente, a teoria de que não existem animais selvagens. Que os animais são tão ou mais sensíveis do que os seres humanos. E que são sensíveis sobretudo ao envolvimento da música, quando esta é competentemente interpretada.

Por isso, uma noite, esgueirou-se sozinho pra dentro do Jardim Zoológico da cidade e, silenciosamente, se aproximou da jaula dos orangotangos. Começou a tocar baixinho, bem suave, a sua magnífica flauta doce, ao mesmo tempo em que abria a porta da jaula. Os macacões quase que não pestanejaram. Se moveram devagarinho, fascinados, apenas pra se aproximar mais do músico e do som.

O músico continuou as volutas de sua fantasia musical enquanto abria a jaula dos leões. Os leões, também hipnotizados, foram saindo, pé ante pé, com o respeito que só têm os grandes aficionados da música. E assim a flauta continuou soando no meio da noite, mágica e sedutora, enquanto o gênio ia abrindo jaula após jaula e os animais o acompanhavam, definitivamente seduzidos, como ele previra.

Uma lua enorme, de prata e ouro, iluminava os jacarés, elefantes, cobras, onças, tudo quanto é animal de Deus ali reunido, envolvidos na sinfonia improvisada no meio das árvores. Até que o músico, sempre tocando, abriu a última jaula do último animal - um tigre.
Que, mal viu a porta aberta, saltou sobre ele, engolindo músico e música - e flauta doce de quebra. Os bichos todos deram um oh! de consternação. A onça, chocada, exprimiu o espanto e a revolta de todos:

- Mas, tigre, era um músico estupendo, uma música sublime! Por que você fez isso?

E o tigre, colocando as patas em concha nas orelhas, perguntou:

- Ahn? O quê, o quê? Fala mais alto, pô!

MORAL: OS ANIMAIS TAMBÉM TÊM DEFICIÊNCIAS HUMANAS.

18 de agosto de 2011

Metrô Noturno



 Fulana by Fernando Lago  (Lula Queiroga - Tem Juízo mas não usa)


Como se a fulana me levasse
um braço, um nome, um rim...


Te odiei naquela primavera, você sabe disso. Você sabia previamente que eu iria te odiar. Te odiei com a mesma força com que te amei nos dias anteriores. Até na noite anterior. Até o último minuto daquela fogueira que acendêramos em nossos corpos juntos no hotel plaza, como dois feixes de lenha seca. Um fogo intenso, destruidor, que apagou-se por si mesmo tão logo atingiu seu ápice. Mas eu, você sabia, não me apaguei por inteiro: passei o dia em brasas.

Não sei exatamente por que te odiei, sei que te odiei. Não sei se o que pesou mais foi você ter ido embora, ou se foi o fato de fazê-lo sem me avisar, alegando que queria me poupar. Não sei se fiquei mais com raiva por causa da sua burrice de achar que me pouparia indo embora sem falar nada comigo, deixando apenas uma carta que eu acharia sabe lá deus quando. Não sei se fiquei ferido no orgulho por você achar que eu precisaria ser poupado de alguma coisa. Simplesmente odiei. Mas suspeito que o principal combustível do meu ódio fora a noite no hotel plaza, tão perfeita! Eu fazendo cálculos na cabeça pro futuro, todos incluindo você – e você simplesmente se despedindo, sem que eu sequer soubesse.

Era cerca de oito horas quando o celular tocou. Era a Marília perguntando se eu estava legal. Eu, ainda em brasas, respondi entusiasmado que “tudo ótimo” e ela achou estranho, perguntando se eu bebera ou fumara algo pra esquecer a dor. Mas eu não sabia de que dor que ela falava.

- Então vocês não brigaram?

- Não, estamos bem... ontem mesmo nós... enfim, que história é essa, Marília?

- É que fiquei sabendo que ela tá no rumo de se enfiar num metrô daqui a pouquinho...

Até hoje não sei bem se a Marília fez isso na inocência ou queria mesmo que eu fosse atrás de você. Você deve se lembrar de que ela foi uma das grandes incentivadoras no início disso que chamamos de nosso romance.

Corri feito um louco com minha moto em direção à estação. Furei sinal vermelho, passei em corredores, cortei sei lá quantos carros, quase atropelei uma criança... Cheguei afoito, corri, saltei a roleta sob protestos do guarda. Ainda deu tempo de gritar seu nome e você virou-se surpresa. Queria ter fotografado o seu rosto naquela hora... Lindamente surpreendido, lindamente culpado.

Azar. A porta do metrô abriu-se e, como todo mundo apinhado atrás da linha amarela, você entrou afobada, eu de cá, olhando desolado... Você conseguiu sentar-se ao lado da janela e acenou pra mim, com lágrimas que até hoje não sei se foram verdadeiras, mas que apagaram o último vestígio avermelhado de brasa que restara em mim.

- Não vá... – falei, inaudível, o que se lia no meu rosto.

- A carta, leia a carta que deixei na sua gaveta!

O trem em movimento. E sua mão acenando por detrás do vidro parecia levar um pedaço muito grande de mim...

Agosto de 2011

24 de julho de 2011

Trinta anos de clonagem




Da série “Crônicas do Futuro”

Os primeiros clones humanos foram apresentados oficialmente à sociedade há cerca de trinta anos. Demorou bastante até o conselho de ética da Organização Mundial de Saúde liberar a experiência. Alguns geneticistas apaixonados, no entanto, chegaram a tentar diversas vezes sem sucesso. Ou, se tiveram sucesso, nunca divulgaram. O fato é que esta semana completou-se trinta anos da oficialização, ocasião pela qual foi inaugurado no Rio de Janeiro o Museu Nacional do Clone, com fotos, filmes e relatos do processo que levou à liberação da clonagem reprodutiva humana.

O processo foi demorado, nós sabemos. Primeiro vieram as células tronco, depois a clonagem apenas para fins terapêuticos, como a reconstrução de órgãos a partir do DNA de pacientes com doenças degenerativas e depois de muitas discussões efervescentes entre defensores da ética, religiosos e cientistas revolucionários, acabou-se legalizando a nível mundial pelas Nações Unidas. Mas sabe-se que em diversos países a legislação já permitia, embora ainda não houvesse registros oficiais de experiências bem sucedidas.

Isso, obviamente, não foi bem recebido pelas religiões em geral. Mulçumanos protestaram, católicos e protestantes foram às ruas, o papa declarou-se contra num discurso histórico em que disse que os cientistas “brincavam de Deus”. Enfim, muito se filosofou sobre o caso.

As primeiras tentativas oficiais de clonagem humana foram registradas na Alemanha, pela Universidade de Berlim. Consta que os três primeiros clones já nasceram mortos, fato que foi encarado pelos religiosos como prova definitiva de que com a evolução dos estudos genéticos o homem poderia até clonar o corpo humano, mas só Deus era capaz de dar o sopro de vida a que chamamos de alma. Anos depois os primeiros clones vivos apareceram.

Segundo o livro do escritor e historiador Pero Guerra, circulou por essa época uma lenda bastante difundida no meio religioso mais popular. Segundo a lenda, Deus resolveu ser condescendente e distribuir a alma humana em mais de um recipiente, permitindo assim o nascimento dos clones. Ninguém explica o porquê dessa mudança repentina de ideia por parte do todo poderoso. Geneticistas contemporâneos explicam que os primeiros clones nasceram mortos por falha humana. O fato é que mesmo passados trinta anos as igrejas tradicionais ainda encaram a clonagem com maus olhos e proíbem os seus fiéis de terem clones. O que não os impede de tê-los. Nota-se que vários empresários católicos possuem clones que os substituem em diversas ocasiões.

De uma maneira ou de outra, os clones são realidade e hoje em dia quase todo mundo tem. E, sinceramente, está cada dia mais difícil viver sem um. Eu mesmo já tenho o meu, que, aliás, é quem vai apresentar essa crônica numa conferência, porque me sinto meio indisposto hoje...

Junho de 2011. Texto Publicado no Jornal Independente 

19 de julho de 2011

Verità




- Já parou pra reparar como tudo é tão perfeito nesse mundo, Vila?

- Eu já parei pra reparar como o seu otimismo é insuportavelmente sincero e por isso mesmo iludido.

- Vila você é um chato! Devia aproveitar mais a vida, olhar mais pro céu, pra natureza. Você só vê o lado ruim das coisas.

- É porque eu sou parte do tal lado ruim das coisas: ser humano. O homem destrói tudo o que vê. E por quê? Por dinheiro, riqueza, poder... a nível macro e a nível micro.

- Falta de Deus...

- Dodô, você sabe muito bem que eu não acredito em Deus!

- Pois sei. Mas Ele acredita em você.

- Pior ainda! Se ele acredita em mim aí é que acredito menos nele. Não dá pra confiar em quem acredita numa pessoa tão sem confiança como eu!

Dodô, diante da irredutibilidade do amigo, apenas riu. Vila riu também. Ambos sorrisos pernósticos, superiores. Como quem sabe uma verdade que o outro nunca saberia.

Julho de 2011

11 de julho de 2011

Foto Síntese



Manuseio este retrato com um único desejo: queria que os índios estivessem certos.

A única coisa que restou de você aqui em casa foi essa imagem aprisionada nesse pedaço de papel, com uma inscrição feita a caneta dourada, daquelas tintas que nunca se apagam: “eu te amo, e é pra sempre.” Preferia que a tinta da caneta sumisse primeiro. Preferia que essa lembrança não ficasse pra sempre impressa em minhas mãos. Preferia, mesmo, que o nosso amor não apagasse. Mas nosso amor não era tão resistente quanto a tinta daquela caneta, quanto esse papel kodak, quanto as tintas da impressora que revelou essa fotografia. Arre! Nosso amor não era mais forte que nada!

Lembro-me do dia que você me apareceu com essa foto. Era anterior a nós. Fora tirada numa dessas viagens que você sempre faz a algum lugar cheio de recursos naturais e que tantas vezes tentou me arrastar – em pouquíssimas conseguiu. Era tão engraçado! Você tentando me convencer que era preciso salvar o planeta. E eu pensava que a salvação do meu planeta estava naqueles dois globos de luz que brilhavam no seu olhar diante de mim. Pura física: eu girava ao seu redor, satélite natural. Você se irritava comigo de um jeito muito doce. Sempre achei que isso não era empecilho. Talvez minha ignorância com a causa ambiental fosse justamente o que mais te atraía. Você beijava minha ignorância, cheirava minha ignorância, fazia amor com ela. Estava sempre falando pra eu parar com os jogos eletrônicos, abandonar os meus dois celulares, mudar meus hábitos... Eu te chamava de louca. Eu te achava louca. E talvez sua loucura fosse justamente o que mais me atraía. Eu beijava sua loucura, cheirava sua loucura, fazia amor com ela.

Foi bem assim que você apareceu na minha vida. Eu já sabia que você era assim. Você também sabia que eu era assim. E nos desafiamos a querermo-nos. A foto, você disse, era um símbolo do nosso amor. Lembrança. E agora ela realmente é só isso: lembrança. Você, ágil como sempre é, empunhou a caneta que em segundos passou da bolsa para a mão e escreveu a frase na foto, eu acompanhando letra por letra. E  U  T  E  A  M  O...  

Quando você veio buscar suas coisas, eu me lembrei de escondê-la. Falei que a tinha perdido, que não sabia mais onde a tinha colocado, que talvez até tivesse ido pro lixo. Você se sentiu ofendida com o meu descaso, eu percebi, embora você tenha tentado ocultar tudo dizendo: “Ô amor, hein!”, com aquele seu sarcasmo que eu odiava amando...

Foi você que me disse uma vez, num dos seus acessos pernósticos de intelectualidade, que em algumas expedições a tribos indígenas os índios tinham medo de ser fotografados porque acreditavam que a câmera ia roubar as suas almas. Queria que eles estivessem certos. Teria aqui comigo a sua alma aprisionada... Embora seu corpo me deixe louco, há tantos outros corpos como o seu, esbeltos, bem feitos, cheios de curvas... Maravilhosa Geometria, calculada milimetricamente. Corpos os há aos montes. Mas sei que nunca acharei uma alma igual à sua... Queria roubar sua alma.

Julho de 2011

24 de maio de 2011

Dividendo



Eu me lembro bem. Você estava sentada do meu lado no banquinho da estação rodoviária e olhava para minhas pernas que balançavam impacientes. Calados, porque não havia nada pra falar, ficamos olhando os carros entrando e saindo da estação.

Tudo tinha acontecido muito rápido. De repente você tinha se tornado parte essencial da minha constituição física e psíquica. Era como se fôssemos um, mesmo em lugares diferentes: como se tivéssemos a capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo, um através do outro. E quando eu dizia ao mundo que você era minha, não o fazia por força de expressão: eu realmente acreditava nisso, queria isso, te enxergava assim.

Mas, de repente, você ia embora, e eu entendi que você era livre e que nós não éramos um. Éramos uma soma que, hoje entendo, fora calculada erroneamente.

Levantei e fui buscar um sorvete. Tínhamos chegado cedo demais, ainda faltava muito pro seu ônibus partir. Tomamos o sorvete todo, ainda calados. Volta e meia você tentava rir, pra animar, mas não tinha argumentos pra defender o seu sorriso. Eu continuava quieto, mais frio que o sorvete que tomávamos.

Perguntei pela trocentésima vez se aquilo era mesmo necessário, se não havia nada que eu pudesse fazer para você desistir daquela viagem. Você disse que era a sua carreira, a sua vida... Eu diria que minha carreira era ser seu e que minha vida era você, que sem você ela acabaria... Mas você sabe que eu nunca fui ligado em sentimentalismos exacerbados... Exceto agora, que a o desgaste da vida e o medo da morte me obrigam a ceder às angústias da alma.

 - Um dia eu volto...

Disse isso passando a mão pelo meu rosto. Sinceridade total e visível no ato, mas nenhuma nas palavras. Mesmo você, por mais que tentasse, não demonstrava ter fé nelas. Eu estava te perdendo. E era pra sempre.

Levantei-me nervoso, pondo as mãos nos bolsos da jaqueta e caminhei até a grade que separava o saguão das plataformas de embarque. Você me seguiu e instalou-se do meu lado, quase colada à minha costela, de onde – dizem as escrituras – O Criador teria extraído a mulher. Sem palavras, me abraçou forte, se aconchegando cada vez mais em meus braços. Em poucos instantes éramos um de novo, unificados pelo abraço.

O autofalante anunciou a saída do seu ônibus, mas eu, ao invés de folgar os braços, te apertei mais ainda contra o meu peito, prisioneira do meu abraço.

- O que é isso?

- Por favor, não vá...

- Tenho que ir...

- Fica, não me deixa!

- Desculpa... Eu te amo.

E me desarmou com um beijo, libertando-se pouco a pouco dos meus braços, das minhas mãos, de mim...

Quando você entrou no ônibus, eu não era eu... não totalmente. Me sentia muito você, talvez mais você do que eu. E me vi entrando no ônibus, disfarçado de você: era uma pedaço de mim, me acenando pela janela, para nunca mais...

Não sei por quanto tempo durei em você, talvez anos, talvez meses, semanas, dias... Talvez você me tenha jogado num rio qualquer, na primeira ponte em que o ônibus passou. Talvez tenha me levado na viajem, deixado a um quanto qualquer em seu apartamento novo para, num dia de faxina, me jogar fora junto com todas as suas tralhas velhas. Ou, quem sabe, num momento de arroxo financeiro, tenha me posto à venda num bazar e repassado por uma bagatela – preço justo.

Não sei por quanto tempo durei em você... Sei que te guardei com muito carinho no melhor lugar de mim. Os anos passaram, coisas mudaram, amigos e amigas vieram, novas paixões... Mas a parte de você que ficou comigo naquela rodoviária esteve sempre guardada. Neste momento da vida, em que nada mais me resta a não ser esperar o inesperado, você – matriz, original – está de volta. Se quiser, se ainda estiver interessada, se a vida boa da capital não tiver feito você esquecer da parte sua que ficou comigo, eu te devolvo a você...


Fernando Lago – 21 de Maio de 2011


19 de fevereiro de 2011

Novas Tendências



- Olha só praquilo, Dodô!

- Que tem?

- Aquilo é homem ou mulher?

- Ora, Vila, dá pra ver que é homem!

- Mas tem roupa de mulher.

- Não, veja as feições, Vila. É um rapazote, de uns 14, 15 anos...

- Tão cedo assim!

- O quê?

- Já assumindo...

- Não é nada disso, Vila, isso é normal!

- Normal? Olha pra esse moleque! Não sei onde ele arruma tanta orelha pra fazer buraco!

- São as novas tendências, Vila! A molecada ta se reinventando!

- Quer dizer que você acha que ele é hétero?

- É sim...

Vila deu um risinho incrédulo. Pagou a conta e saiu.

- Só você mesmo, viu, Dodô. Só você...

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- Amor, sua filha quer te apresentar alguém

- Ah, Joana! Estou cansado!

- Aí vem ela...

- Oi, Nina! Quem é sua nova amiguinha?

- Pai! É meu namorado!

- Joana, me segura que eu vou ter um troço!

- Calma, pai, o Patrick é gente boa! E é músico também. Toca numa banda de happy rock.

- Joana, liga pro cardiologista, pro neurologista, pro psicólogo, pro padre!


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- Minha filha está namorando um híbrido, Dodô!

- Eu avisei!

- Avisou o que?

- Das novas tendências, Vila! Você não ia conseguir fugir delas por muito tempo!

- Mané novas tendências! Pra você é fácil falar... Eu sou da era do rock in roll!

- Eu também não estou acostumado com essas coisas, Vila! É novidade pra mim também. Mas o que a gente pode fazer?

- O que a gente pode fazer eu não sei, mas com minha filha esse hermafrodita não vai fazer nada!

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- E aí, a Nina ta mesmo firme com o carinha?

- Parece que sim! Acho que ele está até pegando os brincos e as blusas dela emprestado.

Dodô caiu na gargalhada.

- Vila, dá um tempo. Você vai se acostumar com o rapaz.

- Meu medo, Dodô, é ele se acostumar demais comigo...

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- A Nina terminou com o transgênico.

- Que houve?

- Coisas de artista, diz ela. O carinha começou a achar ela careta demais, feminina demais pra ficar ao lado dele.

- Nossa, e ela?

- Achava o mesmo dele.

- E por que você está desanimado, não era o que queria?

- É que agora ela namora um cantor de pagode.

Fernando Lago Santos – Fevereiro de 2011