9 de janeiro de 2011

Um prato de trigo




E haja trigos
Intrigas
Estou intrigado e triste
E chego a ficar mais triste
(triste com o mundo e comigo)
Do que os três tigres tristes
Sem ter o prato de trigo

Dezembro de 2010

1 de janeiro de 2011

Intitulé

Tudo o que eu penso já foi pensado
Tudo o que eu faço está errado
Pensei que a vida caminhasse assim
Sem fim
Mas vejo que o fim está mesmo aqui
Em mim

Desando a andar dizendo asneiras
Neste mundo cheio de peneiras
Nada de mim passa
Exceto essa solidão esporádica
Grudada intocável nos meus poros

O sofrimento não existe
Tudo não passa de ilusão
Tortura de um DOPS sentimental
Todos temendo o fim que está em mim
Impiedosos como os carrascos da inquisição

Todos me querem por perto
Exceto
Os que estão certos
Os que escaparam à hipnose da minha mediocridade

Expulsam-me da vida, mas não me deixam à morte
Sorte
Pensam que sou forte
Corte

Trago no meu bolso todos os covis do mundo
Que me injetam o veneno da solidão intragável
Está por todo o meu corpo
E não será removido

Deito no banco infinito da pequena praça
E com os olhos cheio de nada
Saúdo efusivamente a lua e as estrelas
Minha companhia na madrugada

Dezembro de 2010

23 de dezembro de 2010

Fantasma Importado*




NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Lisbon Revisited (1923). Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).

*Às vezes nem meus fantasmas são suficientes. Importo dos outros, de Portugal, por exemplo. Eis aí o Pessoa: ótimo fornecedor de fatasmas.

15 de dezembro de 2010

Mundo



Mundo, mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
(Drummond)


Ah mundo!
Mundo, mundo!
Quisera, ao menos um segundo
Entender tuas demandas

Entender os teus dizeres
Compreender os desprazeres
E os desmandos que me mandas

Mundo, vida
Coisa estranha e abstrata
Com que trato me destratas
Com que prato me retratas
Na mesa dos que me querem
Devorar as carnes

Que mundo?
Que vida?
A serviço de quem me persegues?
A serviço de que?
Me entregues
Os teus segredos, mundo.

Caminho por suas ruas
Orbito por suas luas
E choro meu pranto, choro.
Arranco a minha lágrima
Que esteve sempre escondendo
Meu desespero profundo.

Fernando Lago
Feira de Santana, 11 de Dezembro de 2010

4 de dezembro de 2010

Contudo



Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.

Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.

Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim.

Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa)